Acusações contra o Talmud (parte 4) - Não judeus são chamados de animais?

Continuando nossa série, esclarecendo e respondendo aos caluniadores:

UMA OUTRA ACUSAÇÃO

Yebamoth 98a. Todas as crianças gentios são animais. Berakoth 58a. Além de ter Elias flutuando do céu para enganar a corte gentio, o Talmude ensina que os gentios são na verdade animais, portanto o rabino Shila (e Elias) realmente não mente. Também ensina que qualquer um (mesmo um judeu) que revela este ensinamento talmúdico sobre não-judeus merece a morte, uma vez que revelá-lo torna os gentios irados e causa a repressão do judaísmo.

Se você acompanhou os esclarecimentos desde o começo (parte 1, 2 e 3) já viu que, as discussões do Talmud, por lidarem com regras, ritos, e usarem linguagem técnica a partir de textos das escrituras (como no exemplo, onde "Adam" é usado para se referir a: "àquele a quem se aplicam regras de pureza/impureza ritual") - saiba que também aqui, a questão é similar.

Se trata daquele mesmo tipo de complexidade e, portanto, basta ler com atenção (coisa que, parece ser impossível aos caluniadores) para compreender o caso totalmente.

O que se demonstra é o óbvio - o Talmud não afirma, em lugar nenhum, que "não judeus" são animais".

Tanto a passagem no tratado de Ievamot onde se conta a anedota com a personagem Eliahu (sim, o profeta mencionado na Bíblia Hebraica), são relatos deturpados por cristãos neonazistas e seus colegas.

O que as passagens realmente disseram é que, devido à proibição bíblica contra israelitas se casarem com idólatras (Kena'anim) não haveria 'posição legal' (ou seja, consideração, dentro da lei judaica, ou reconhecimento na lei judaica) para 'relações sexuais' entre um israelita e um idólatra.

Embora isso possa parecer 'ofensivo' para alguns (especialmente, os idólatras), era a visão desta coletânea de textos de 2 mil anos atrás, o Talmud:

O culto idólatra era praticado, principalmente via sexo. Os sábios então, deslegitimaram o "método" de culto deles, por completo.

Sim, isso pode ofender idólatras que sejam de tal culto, é claro. Mas, o Judaísmo sempre - e claramente - se opôs a sua ideia de idolatria. Então...

Vamos começar vendo a "cena" a-histórica, usada na calúnia:

רַבִּי שֵׁילָא נַגְּדֵיהּ לְהָהוּא גַּבְרָא דִּבְעַל גּוֹיָה. אֲזַל אֲכַל בֵּיהּ קוּרְצֵי בֵּי מַלְכָּא, אֲמַר: אִיכָּא חַד גַּבְרָא בִּיהוּדָאֵי דְּקָא דָּיֵין דִּינָא בְּלָא הַרְמָנָא דְמַלְכָּא. שַׁדַּר עֲלֵיהּ פְּרִיסְתְּקָא. כִּי אֲתָא אָמְרִי לֵיהּ: מַאי טַעְמָא נַגֵּדְתֵּיהּ לְהַאי? אֲמַר לְהוּ: דְּבָא עַל חֲמָרְתָא. אָמְרִי לֵיהּ: אִית לְךָ סָהֲדִי? אֲמַר לְהוּ: אִין. אֲתָא אֵלִיָּהוּ אִדְּמִי לֵיהּ כְּאִינִישׁ, וְאַסְהֵיד. אָמְרִי לֵיהּ: אִי הָכִי, בַּר קְטָלָא הוּא! אֲמַר לְהוּ: אֲנַן מִיּוֹמָא דִּגְלֵינַן מֵאַרְעִין לֵית לַן רְשׁוּתָא לְמִקְטַל. אַתּוּן, מַאי דְּבָעֵיתוּן עֲבִידוּ בֵּיהּ. עַד דִּמְעַיְּינִי בֵּיהּ בְּדִינָא, פְּתַח רַבִּי שֵׁילָא וַאֲמַר: ״לְךָ ה׳ הַגְּדֻלָּה וְהַגְּבוּרָה וְגוֹ׳״. אָמְרִי לֵיהּ: מַאי קָאָמְרַתְּ? אֲמַר לְהוּ, הָכִי קָאָמֵינָא: ״בְּרִיךְ רַחֲמָנָא דְּיָהֵיב מַלְכוּתָא בְּאַרְעָא כְּעֵין מַלְכוּתָא דִרְקִיעָא, וִיהַב לְכוּ שׁוּלְטָנָא וְרָחֲמִי דִּינָא״. אֲמַרוּ: חַבִּיבָא עֲלֵיהּ יְקָרָא דְמַלְכוּתָא כּוּלֵּי הַאי! יָהֲבִי לֵיהּ קוּלְפָא אֲמַרוּ לֵיהּ: דּוּן דִּינָא. כִּי הֲוָה נָפֵיק, אֲמַר לֵיהּ הַהוּא גַּבְרָא: עָבֵיד רַחֲמָנָא נִיסָּא לְשַׁקָּרֵי הָכִי? אֲמַר לֵיהּ: רָשָׁע, לָאו חֲמָרֵי אִיקְּרוּ? דִּכְתִיב: ״אֲשֶׁר בְּשַׂר חֲמוֹרִים בְּשָׂרָם״. חַזְיֵיהּ דְּקָאָזֵיל לְמֵימְרָא לְהוּ דִּקְרִינְהוּ חֲמָרֵי, אֲמַר: הַאי רוֹדֵף הוּא. וְהַתּוֹרָה אָמְרָה: אִם בָּא לְהׇרְגְּךָ — הַשְׁכֵּם לְהׇרְגוֹ. מַחְיֵיהּ בְּקוּלְפָא וְקַטְלֵיהּ.

...quanto à conexão entre a realeza divina e a terrena, a Guemará cita outra narrativa: O rabino Sheila ordenou que um homem que mantinha relações com uma mulher estrangeira fosse açoitado. Esse homem açoitado, foi informar o rei e disse: Há um homem entre os israelitas que faz o julgamento sem a autoridade do rei [הַרְמָנָא harmana]. O rei enviou um mensageiro [פְּרִיסְתְּקָא peristaka] para o rabino Sheila ser levado a julgamento. Quando o rabino Sheila chegou, lhe disseram: Por que você ordenou açoites para este homem? Ele lhes disse: Porque ele manteve relações com uma jumenta. De acordo com a lei Persa, este seria um crime extremamente hediondo, mas não de acordo com a lei Romana, então eles lhe disseram: Você tem testemunhas de que ele realmente fez isso? Ele respondeu: Sim! E Eliahu o profeta, veio e apareceu como se fosse uma pessoa e testificou. Eles disseram ao rabino Sheila: Se fosse assim, ele seria passível de pena capital; então, por que você não decretou pena capital? Ele respondeu: Desde o dia em que fomos exilados de nossa terra, não temos autoridade para aplicar pena capital, mas vocês tem, façam com ele o que quiserem. Mas, o ato não era um crime sério na legislação deles. E enquanto eles consideravam a frase, o rabino Sheila elogiou ao Divino, por salvá-lo do perigo, dizendo em Hebraico: Tua, HaShem, é a grandeza, o poder, honra, triunfo e majestade; porque tudo o que está nos céus e na terra é teu; Teu é o reino, ó HaShem, e tu és exaltado como cabeça, acima de tudo” (citando, Divrei HaIamim 29 : 11). Eles perguntaram a ele: O que você disse? Ele lhes disse: Isto é o que eu disse: Bem-aventurado é o Misericordioso, que concede o reino na terra que é um microcosmo do reino nos céus, e concede a vocês o domínio e o amor pela justiça. Disseram a ele: Na verdade, se a honra da realeza é tão cara a você... deram a ele então um cajado, para simbolizar sua permissão para legislar e disseram a ele: O senhor agora é Juiz. Ao sair, aquele homem acusado disse ao rabino Sheila: Elohim faz tais sinais aos mentirosos? Ele respondeu: Canalha! Você já não sabia que os idólatras foram chamados 'jumentos' nas escrituras? Como está escrito: “Cuja carne é como a carne de jumentos (Ieheskel 23 : 20). O rabino Sheila viu que ele ia dizer às autoridades que os tinha xingado de jumentos. Ele disse: Este homem tem o status legal de "perseguidor". Ele pretende me matar. E a Torá diz: Se alguém vier tentar te matar, mate-o primeiro! Ele o atingiu com o bastão e o matou.

Há uma série de pontos interessantes a serem levantados sobre esta passagem.

No entanto, em primeiro lugar, é a inferência que tem sido desenhada por caluniadores de que esta seria a passagem que afirmaria que "os gentios" em geral, seriam chamados/considerados "jumentos" pelo Talmud/Judeus.

Como vimos porém, quem chama os idólatras de "jumentos" foi o profeta Ieheskel. O trecho só faz uma paráfrase.

E quando esta posição do profeta é discutida depois, os sábios que discutiram acabam nem concordando com a conclusão. Na verdade, como veremos em breve, o Talmud realmente afirma essa possibilidade interpretativa pelo dito do profeta, e rapidamente a rejeita como errônea!

Vamos primeiro colocar este evento em seu próprio contexto histórico.

Pesquisadores como Aharon Hyman [autor da obra Toldot Tannaim Ve'amoraim, vol. 3 pp. 1111-1112] esclarece que este texto se refere ao tempo do rabino Shimon ben Gamaliel II. Isso quer dizer, que o texto era do início do século II da era comum.

Cerca de 50 anos antes desta passagem então, o Templo havia sido destruído e grandes porções da população judaica, foram trazidas como escravos para Roma e vendidas.

Os judeus escravizados ainda eram perseguidos, devido aos decretos do imperador Trajano (que reinou de 98 a 117) e, quando ele morreu, Adriano tornou-se seu sucessor, com uma política inicial de tolerância, mas que também foi alterada para uma de perseguição. Alguns disseram que o rigor teria ocorrido, devido a informantes dentre os próprios israelitas, que advertiram contra se dar aos demais israelitas muita independência!

No ano de 114, a enorme população judaica de Alexandria quase foi dizimada por ataques, com a aprovação tácita do governo Romano. No ano de 123, Adriano proibiu os israelitas de observarem o Shabat e de circuncidarem seus filhos [para se informar, leia a obra de Mattis Kantor, A Enciclopédia da Linha do Tempo Judaica, pp. 103-105].

Então, estamos falando de tempos perigosos e assustadores para os israelitas. Esta situação difícil culminou numa revolta no ano 127. No entanto, os eventos em nossa passagem evidentemente precedem a revolta.

O "homem" sem nome, de nossa passagem, era um israelita que cometeu uma violação religiosa de forma audaciosa. Ele mantinha relações sexuais com mulheres estrangeiras. Não sabemos se eram "romanas" ou, de outros povos mas, sabemos disso: Aquilo poderia trazer a ira de Roma contra toda a comunidade judaica. Os romanos usavam e abusavam de suas mulheres escravizadas. Mas, não permitiam a mesma coisa, para as mulheres romanas livres.

E ao fazer aquilo, aquele homem expunha a Comunidade Judaica toda ao risco de violência e morte. Era por causa disso que ele estava sendo punido por um tribunal judaico.

O tribunal havia decretado, com base nas leis existentes na Torá contra se ter relações com idólatras Kena'anim, que seria também proibido ter relações com qualquer outra pessoa. Afinal, já era claro na lei judaica, que não seria permitido manter relações com outras mulheres, além da própria esposa (ou, esposas, se fosse o caso). Como nesta época, absolutamente todos os não israelitas eram de alguma religião considerada idólatra (romana, grega, etc), era considerado proibido a israelitas, se casarem com não israelitas. [baseados em Devarim 7 : 3; Ezrah 9; Nehemiah 13 : 23 - 28].

Aquele "homem" então, foi considerado como alguém que errou de modo grave, especialmente naquelas circunstâncias, e o tribunal judaico o julgou e condenou por aquilo.

[Tribunais como aquele, não possuem mais autoridade, nem religiosa ou secular, de punir por tais erros - não importa o que os fanáticos digam hoje.]

No entanto, aquele tribunal não era, naturalmente, reconhecido pelos Romanos e então, eles não teriam consigo a autoridade Romana, para punir o israelita por crimes contra a comunidade judaica.

Quando o rabino Shila, que presidia o tribunal de três juízes, foi convocado perante as autoridades Romanas, ele poderia ter sido executado (no estilo Romano de execução) por aplicar leis judaicas.

Portanto, ele alegou sob coação, que o homem talvez havia violado uma lei Romana e que o tribunal estava apenas fazendo o que qualquer tribunal Romano teria feito. Os romanos usavam zoofilia como forma de punição no Coliseu.

Quando os Romanos decidiram julgar o caso eles mesmos, o rabino Shila percebeu que aquele homem poderia ser punido mais severamente, do que seu crime merecia. Um escravo israelita, não poderiam manter relações sexuais com uma cidadã Romana.

O rabino Shila então, engana o tribunal para salvar a vida daquele homem, dizendo que o homem tinha "dormido com um jumento". Os Romanos não executavam pessoas por isso (como falei, já era uma punição para eles), então, iriam desconsiderar todo o problema e deixar para lá o caso.

No entanto, esta afirmação não foi "uma mentira" simplesmente, posto que a Bíblia Hebraica - na pessoa de ninguém menos que o profeta Ieheskel - diz mesmo, que os idólatras (naquele caso, os egípcios) foram comparados aos jumentos, particularmente no que diz respeito ao culto de sexo ritual que praticavam (provavelmente, egípcios que seguiam ritos dos Kena'anim)! Sim, o profeta disse aquilo, sem "nenhum respeito" pelas pessoas que praticavam sexo ritual em suas religiões! Pois é...

O Judaísmo é contra tal prática, e isso é novidade?

O Judaísmo sempre foi contra sexo ritual (tipo, Tantra), sacrifícios de filhos (real ou simbólico), sacrifício humano (real ou simbólico, tipo cristianismo), prática de magia (sim, a Cabalá é uma contradição óbvia mas é fenômeno do século XIII), consulta de espíritos (sim, o Hassidismo é uma contradição óbvia mas é do século X) e contra consulta aos astros (sim, a Cabalá é uma contradição óbvia, mas é no século XII que isso começa)...

Portanto, o rabino Shila (que era do século II) poderia alegar, que ele estava falando "metaforicamente" e, o tribunal erroneamente o entendeu literalmente.

Ele foi cem por cento honesto? Não. No entanto, ele estava lidando com um governo psicopata, injusto, cruel e escravizador, que estava ativamente perseguindo judeus. Seria "pecado" mentir para Nazistas para salvar alguém? Pois é...

Essa mudança de narrativa, salvou a vida de um israelita que nem era "persona grata". Ele achou ruim de ter sido "açoitado"? Claro. Mas, os Romanos o mutilariam e crucificariam, no mínimo! Havia um forte taboo romano contra mulheres livres, terem relações sexuais com escravos. Especialmente então, se fosse um escravo israelita!

E essa distinção é crucial para determinar se era permitido ou não, mesmo durante esses tempos terrivelmente perigosos agir daquele modo. O rav Shila agiu como agiu...

Mais tarde, aquele homem foi ingrato ao rav Shila - embora compreensivelmente desde que ele tinha sido açoitado recentemente por ordem ele! - De qualquer forma, ele ameaçou voltar ao tribunal Romano local, e denunciá-lo ao governo romano de novo. Isso significaria execução com certeza, para o rav Shila, e possivelmente um massacre na comunidade judaica.

O rav Shila, entendeu que ele estava, ativamente, tentando causar sua morte de pessoas inocentes, denunciando o rav Shila aos Romanos. E vendo a situação como risco certo de morte, ele se viu no direito, em plenos séculos II da era comum, de se salvar da tortura, matando aquele homem. A cena coloca que o pior inimigo dos israelitas, eram os próprios israelitas!

[A cena anedótica, da "descida de Eliahu" obviamente, foi um recurso literário, um exemplo fascinante da ideia de intervenção divina, por meio de coincidências. Isso ecoa ideias do divino falando diretamente com o ser humano no início do período bíblico, e a diminuição disso, através da era dos profetas, e a redução gradual da clareza da profecia, até ser totalmente encerrada no tempo de Ezrah. O texto quer implicar, que ainda haveriam "formas" de intervenção divina, mas seriam muito sutis e quase imperceptíveis. As tais "coincidências". O rabino Shila viveu durante o final do último período atribuído a última fase de revelações do divino e ele era considerado, portanto, capaz de testemunhar a manifestação do Divino. A isso alude a anedota da "descida de Eliahu". Isso, no entanto, desvia um pouco do assunto então, é melhor deixar para outra hora.

Embora eu espero que tenha ficado claro, que a alegação de que o rav Shila quis dizer que "os não judeus" seriam todos "jumentos" literalmente é falsa. E aqueles que afirmam isso, são culpados de calúnia e de ler um episódio a-histórico de modo excessivamente literal.

Mas, o estudo não terminou. Ainda temos que comprovar nossa reivindicação: A passagem seguinte, nos mostrará um pouco mais:

אָמַר רַב יְהוּדָה: גּוֹי עָרוֹם אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיאַת שְׁמַע כְּנֶגְדּוֹ. מַאי אִירְיָא גּוֹי? אֲפִילּוּ יִשְׂרָאֵל נָמֵי! יִשְׂרָאֵל פְּשִׁיטָא לֵיהּ דְּאָסוּר, אֶלָּא גּוֹי אִיצְטְרִיכָא לֵיהּ מַהוּ דְתֵימָא, הוֹאִיל וּכְתִיב בְּהוּ ״אֲשֶׁר בְּשַׂר חֲמוֹרִים בְּשָׂרָם״, אֵימָא כַּחֲמוֹר בְּעָלְמָא הוּא, קָא מַשְׁמַע לַן דְּאִינְהוּ נָמֵי אִיקְּרוּ עֶרְוָה, דִּכְתִיב: ״וְעֶרְוַת אֲבִיהֶם לֹא רָאוּ״.

...O rav Iehudá disse: Em frente a um גּוֹי membro das nações nu, é proibido recitar o rito do Shemá. A Guemará pergunta: Por que o rav Iehudá discutiu particularmente o caso de um גּוֹי membro das nações? Mesmo com relação a um israelita, isso também seria proibido! A Guemará responde: Em frente à nudez de um israelita, seria óbvio que tal ato seria proibido. No entanto, em relação à nudez de um גּוֹי membro das nações, era necessário que ele dissesse a regra. Para que você não dissesse: Já que foi escrito sobre os גוים membros das nações: A carne deles é carne de jumento (Ieheskel 23 : 20), se diria interpretando a metáfora literalmente, que sua nudez seria então como a de um mero jumento e, portanto nem se constituiria em nudez. Mas, o rav Iehudá nos ensinou que a nudez dos גוים membros das nações, também é considerada nudez e portanto, não se interpreta o profeta literalmente! Como está escrito a respeito dos filhos de Noah: E não viram a nudez de seu pai (Bereshit 9 : 23). Embora Noah fosse anterior a Avraham na narrativa e não tenha sido israelita, sua nudez é mencionada normalmente.

הָכָא נָמֵי, כְּתִיב: ״וְלֹא יִרְאֶה בְךָ עֶרְוַת דָּבָר״? הַהוּא, מִיבְּעֵי לֵיהּ לְכִדְרַב יְהוּדָה. דְּאָמַר רַב יְהוּדָה גּוֹי עָרוֹם — אָסוּר לִקְרוֹת קְרִיַּת שְׁמַע כְּנֶגְדּוֹ.

[continuando a discussão]... a Guemará desafia: Mas aqui também, com respeito a uma casa de banho e um banheiro, está escrito: “Para que Ele não veja nada impróprio [דבר davar] em você (Devarim 23 : 15). Podemos inferir que isso proíbe a fala [דבור dibur ], mas não a contemplação. A Guemará responde: Esse verso não se refere à fala. É necessário para a decisão do rav Iehudá, pois o rav Iehudá disse: Em frente a um גּוֹי membro das nações nu, é proibido recitar Shemá, pois essa nudez está incluída na proibição de "coisas impróprias" mencionadas antes.

O que vemos aqui é um sábio talmúdico abordando exatamente esta questão.

Os rabinos do Talmud estavam muito familiarizados com a Bíblia Hebraica (alguns a haviam decorado), e sabiam sobre aquele verso do profeta Ieheskel que, embora estivesse falando de pessoas consideradas idólatras - particularmente, dos egípcios naquele caso - poderia ser geralmente entendido, como se estivesse referindo a todos os não israelitas.

Daí a discussão sugerir que, alguns poderiam querer ler aquele verso e entender no sentido de que, dentro da lei judaica, os membros das nações poderiam até "andar nus" porque seriam como se fosse os demais animais, perante os quais se pode fazer ritos religiosos sem necessidade de os cobrir.

No entanto, o rabino Iehudá claramente ensina, que isso não seria a leitura correta do profeta. Ele diz que os membros das nações deveriam ser considerados, também para fins de proibições rituais contra a nudez, como pessoas normalmente. O verso em Ieheskel então, não significa que os membros das nações em geral seriam como animais! E se alguém tivesse de ser acusado de "ter dito isso", seria o profeta, não o Talmud!

Mas, o rabino Iehudá condena quem interpretasse o verso literalmente. Ele diz que os membros das nações são inquestionavelmente pessoas como todo mundo - como o Sefer Bereshit diz, criados à imagem divina - e que, a lei judaica reconhece isso, tal qual os rabinos do Talmud.

Este verso era entendido como implicando que israelitas e membros das nações não poderiam se unir sexualmente. A religião egípcia também era considerada atrativa e os profetas usavam o eufemismo da sexualidade para indicar isso. Embora a religião egípcia em particular, fosse condenada por causa da permissão de sexo "entre família", no caso dos Faraós; os Kena'anim praticavam sexo ritual entre si (e todos os membros da família deles também, adicionalmente). Se pensava que proibir "relações" entre israelitas e os povos ao redor, era o mesmo que proibir Idolatria.

É por isso que existem trechos na Bíblia Hebraica nos dizendo que era proibido aos israelitas "se casarem" (terem relações sexuais) com membros das nações. [como em Devarim 7 : 3; Ezrah 9; Nehemiah 13 : 23-28]. Não era uma proibição contra "as pessoas", mas contra a tradição religiosa deles.

Embora isso certamente pareça uma lei lógica (unir-se sexualmente a "fulana de tal" era a prática da religião dela...), o motivo da proibição também refletia que seria muito difícil para alguém, num casal "israelita e não israelita" observar plenamente as leis religiosas judaicas, enquanto o outro não colabora.

Também seria difícil criar os filhos com a visão de mundo a tradição judaica. O verso em Ieheskel no entanto, estava dizendo que um israelita que "se casava" (ou seja, que mantinha relações sexuais com não israelitas), violava uma lei (contra unir-se com idólatras) e sua ação (a tal união) não significava nada legalmente falando.

O casamento e/ou as relações, não teriam "posição legal" de tal modo que, nem mesmo um divórcio seria necessário. Normalmente, quando alguém casado "tem um caso", após a separação eles são proibidos de voltar um para o outro (o casal separado). A pessoa que escolheu outra, deveria então se casar com seu amante, depois de se divorciar do cônjuge anterior. Não há volta.

No entanto, como as relações com membros das nações em torno dos israelitas não teriam "reconhecimento legal", uma mulher que tivesse um caso com um membro das nações, poderia - se quisesse - voltar a se casar com "seu amante" (se ele abandonar a idolatria). Ela transformaria o casamento em algo "legal" como se fosse.

Essa regra antiga não existia, porque os membros das nações "não são humanos" ou, porque "israelitas não podem ter relações" com membros das nações. É porque há uma "incompatibilidade jurídica" mesmo, que torna o "casamento" (que sempre quer dizer: relações sexuais) com um membro das nações (ainda idólatra) legalmente ineficazes.

[ver Tossafot, Ketuvot 3b sv. Velidrosh; R. Betzalel Ashkenazi, Shitah Mekubetzet, ibid. (particularmente sv. Mihu)]

Esta era a mensagem do verso em Ieheskel. Assim como as relações dos idólatras, em seus cultos de sexo ritual, foram chamadas por ele como se fossem com "jumentos", querendo dizer que não teriam "validade jurídica" (exceto na questão da punição para tal ato) e não poderiam "causar casamento ou separação" (alguém que cometesse zoofilia não teria que ser "divorciado" do animal), também, nas relações com um membro das nações idólatra - o sexo ritual deles - não tem validade jurídica dentro da lei judaica. Dentro da lei judaica, Sexo = Casamento, entre duas pessoas. Mas, se fosse praticado com idólatras, não.

[ver R. Hershel Schachter, Eretz HaTzvi, p. 114]

Novamente então, não é porque o profeta achava - literalmente - que um membro das nações era "considerado um jumento".

Era porque, nessa dimensão jurídica (de se determinar quem está unido a quem) ambos devem estar na mesma categoria. E na lei judaica, israelitas e idólatras não estavam, pois era proibido se unir com Idólatras, praticar seu culto, fazer seus rituais de sexo, etc.

Em todas as outras dimensões da vida, particularmente na arena da dinâmica interpessoal, os membros das nações - mesmo que fossem idólatras - são compatíveis com os israelitas. No entanto, na área do casamento, israelitas e membros das nações idólatras nunca poderiam "se casar", como um ato reconhecido pela lei judaica. A Lei Judaica se coloca - por definição - contra a Idolatria.

Uma ideia paralela a essa, é a de que o israelita que tenha ascendência das nações, não era mais considerado "relacionado" (pelo seu parentesco real) com as nações de onde veio - dentro da lei judaica.

Ou seja, uma vez que, no direito judaico, as relações entre idólatras nem são consideradas, a conexão biológica daquele israelita, não cria uma "relação familiar" dentro da lei judaica.

Isso é aplicável principalmente - e obviamente - a pessoas convertidas ou aos filhos de casamentos. Embora haja todas as razões para expressar gratidão e amizade com um parente biológico das nações, cada convertido ao Judaísmo sabe (ou, deveria saber enfim) que ele ou ela, quebrou todos os laços familiares com os povos de onde veio, quando se converteu - dentro da lei judaica.

O convertido é considerado literalmente - dentro da lei judaica - filho/filha de Avraham. Não "metaforicamente" como dizem. Ser ou não ser "filho de Avraham" não é um "status biológico" dentro da Lei Judaica. É uma questão jurídica. Tal qual "ser ou não ser" Israelita.

אָמַר רָבָא הָא דַּאֲמוּר רַבָּנַן אֵין אָב לְגוֹי לָא תֵּימָא מִשּׁוּם דִּשְׁטִופִי בְּזִמָּה דְּלָא יְדִיעַ אֲבָל יְדִיעַ חָיְישִׁינַן אֶלָּא אֲפִילּוּ דִּידִיעַ נָמֵי לָא חָיְישִׁינַן דְּהָא שְׁנֵי אַחִין תְּאוֹמִים דְּטִפָּה אַחַת הִיא וְנֶחְלְקָה לִשְׁתַּיִם וְקָתָנֵי סֵיפָא לֹא חוֹלְצִין וְלֹא מְיַיבְּמִין שְׁמַע מִינַּהּ אַפְקוֹרֵי אַפְקְרֵיהּ רַחֲמָנָא לְזַרְעֵיהּ דִּכְתִיב בְּשַׂר חֲמוֹרִים בְּשָׂרָם וְזִרְמַת סוּסִים זִרְמָתָם

...Rava disse: Em relação ao quê, os Sábios disseram, que um גּוֹי membro das nações não tem 'linhagem patrilinear'? Não diga que é porque eles estão tão impregnados de licenciosidade (pelo culto idólatra) que não saberiam dizer, a identidade de seus pais com certeza, mas se essa identidade é conhecida, nos preocupamos que a paternidade seja de fato reconhecida, no que diz respeito à proibição de relações sexuais proibidas com parentes paternos e outras questões haláhicas. Em vez disso, mesmo quando é conhecido, ainda não estamos preocupados. A comprovação seria o caso de dois irmãos gêmeos idênticos, que eram "uma gota" que foi "dividida em dois" e obviamente teriam o mesmo pai, e ainda assim foi ensinado na última cláusula do baraita : Eles não realizam o rito de ḥalitza (descalçamento) e não realizam casamento levirato (da viúva com o irmão do falecido sem filhos), embora certamente tenham o mesmo pai. Aprendemos com isso que o Misericordioso despojou haláhicamente, o גּוֹי membro das nações de sua prole, como está escrito a respeito dos egípcios: Cuja carne é como a carne de jumentos e cujo sêmen é como sêmen de cavalos (Ieheskel 23 : 20), ou seja, a descendência de um גּוֹי membro das nações não era considerada mais, "aparentada" com ele, do seria a "descendência de jumentos e cavalos"...

Neste trecho, se fala do גּוֹי membro das nações que, abandonando a idolatria, se converteu ao Judaísmo. Como agora, ele recebe o "status" de "filho/descendente" de Avraham, isso não era entendido como se ele fosse "simbolicamente" filho de Avraham. Mas, foi entendido como "literalmente" filho de Avraham. Portanto, "o pai" de sua nação de origem, não era mais considerado seu pai - dentro da lei Judaica.

Isso não é dizer, o Talmud teve até o cuidado de salientar, porque "assumimos" (imaginamos) que o גּוֹי membro das nações seriam "licenciosos" (por causa da prática de sexo ritual) e daí, seu "pai biológico" poderia, nem mesmo ser realmente o homem que engravidou sua mãe. Não era esse o argumento, o Talmud diz.

Em vez disso, um israelita e um גּוֹי membro das nações são separados dentro da lei judaica. Por este "abismo jurídico" por assim dizer, pois as relações sexuais com idólatras, foram totalmente proibidas.

Este é certamente um conceito difícil de aceitar para quem for da religião idólatra em questão.

E é compreensível se o גּוֹי membro das nações achar isso desconcertante e talvez até ofensivo. Ele não vê problema nenhum em seu "rito", seu "tantra" e etc. Mas, esta tradição sim. O Judaísmo dos rabinso do Talmud se opunha fortemente a isso e faz isso, de modo jurídico. Dentro da lei judaica.

No entanto, essa desaprovação, não é a mesma coisa que rotular גּוֹי membro das nações como "animais" e isso é importante ressaltar. O Judaísmo do Talmud se posicionava contra a Idolatria. Sempre fez isso, mesmo quando Impérios Idólatras estiveram no poder. As práticas idólatras não foram reconhecidas. E a união com idólatras, também não.

Essas passagens podem e foram mal interpretadas, só que foi de propósito. Foram usadas para dizer que "o Talmud" considera "os gentios" como animais. Isso é absolutamente falso, como já foi demonstrado.

Outra comprovação está no fato de se estar falando "convertidos ao Judaísmo" e não sobre todos os gentios, como se vê no Talmud, tratado de Kidushin 17b onde se afirma, que um גּוֹי membro das nações herda de seu pai - imaginando um גּוֹי membro das nações vivendo na jurisprudência de Israel e solicitando direito à herança.

Se um גּוֹי membro das nações não tivesse - literalmente - ligação com seu pai biológico, como ele pode herdar dentro da lei judaica? Ele herda sim. A "desconexão" entre israelitas e גּוֹי membro das nações, diz respeito a união sexual apenas.

Da mesma forma, o Talmud no tratado de Ievamot 62a nos diz, que o גּוֹי membro das nações que tiver filhos, e assim cumprir a bênção/mandamento de "ser frutífero e multiplicar", que posteriormente se converterem ao Judaísmo, não seria "obrigado a ter mais filhos". Seria considerado como ele já tivesse "cumprido" a bênção/mandamento, quando era גּוֹי membro das nações. Desse modo, ele não precisava cumprir a regra novamente, agora que era israelita. Isso mostra que o גּוֹי membro das nações que se converte é considerado literalmente israelita, não simbolicamente.

Se um גּוֹי membro das nações não tivesse literalmente pai, então poderia ter cumprido a bênção/mandamento de "ser frutífero e multiplicar"? Seus filhos nunca seriam considerados dele. Mas, são.

Em vez disso então, as passagens anteriores, relativas "ao jumento" - na linguagem do profeta Ieheskel - não estão discutindo sobre o גּוֹי membro das nações de um modo geral, mas apenas os casos específicos mencionados, nas relações com idólatras.

A linguagem do profeta foi rude? Certamente. Você nunca leu o livro de Ieheskel? Pois é, ele era meio rude as vezes, inclusive com israelitas. Essa era uma característica de autores do mundo antigo, em muitos momentos. Não tinham as "sensibilidades modernas".

Mas isso não é o mesmo que dizer que "o Talmud" disse isso e aquilo.