O desenvolvimento da narrativa do milagre do óleo de Hanuká no contexto do Zoroastrismo

Em sua obra, The Iranian Talmud Reading the Bavli in Its Sasanian Context - o Dr Shai Secunda, professor de Judaísmo no Bard College (New york, EUA) corrobora que, nos últimos anos, a maioria dos acadêmicos concorda que a história sobre o "milagre do óleo" lembrada em Hanuká, é um acréscimo tardio às tradições de celebração desta festa.

[Para quem não tiver lido, recomendo o estudo que fizemos: Hanuká e a política por trás da revolta dos Macabeus]

Neste estudo veremos evidências de um possível precursor grego para a história que, em comparação com o papel que a religião iraniana, o zoroastrismo, desempenhou em ambas as tradições sobre o 'fogo milagroso', podem ter fundamentado todo o conceito:

FONTES PARA A HISTÓRIA DE HANUKÁ

Esta reflexão existe, primeiramente, porque o relato do 'milagre do óleo', simplesmente não consta em nossas fontes mais antigas sobre Hanuká. A maioria das fontes rabínicas clássicas, não conhece a história e até parece relativamente desinteressada, na prática de acender as luzes de Hanuká.

FONTES ANTIGAS PRESERVADAS EM GREGO

Fontes mais antigas, preservadas em grego e escritas o mais próximo possível da história de Hanuká, mal mencionam a Menorá e não registram uma prática comemorativa de acender luzes:

O livro de Macabeus:

Este livro, se coloca como um relato historiográfico, atribuído a segunda metade do segundo século antes da era comum. O material sobreviveu em grego, e parece ter sido baseado num 'original hebraico' (que jamais foi encontrado).

O livro descreve que, em Hanuká ocorreu a limpeza e reconstrução do Templo, e particularmente as restaurações de Ofertas num altar recém-construído (o altar original foi considerado profanado e, portanto, demolido e reconstruído).

Em 1° Macabeus 4 : 59 lemos uma referência ao feriado, explicando que Hanuká seriam os: "Dias da dedicação do altar", que "deveriam ser observados com alegria e júbilo, por oito dias."

Já o 2° livro de Macabeus, teria sido originalmente escrito em grego, depois da primeira versão. Estima-se que seja do final do segundo século, antes da era comum. Este livro posterior, da mesma forma, se refere à restauração de Ofertas como sendo "Hanuká", e menciona como os Judeus agora: "ofertavam incenso e velas acesas, e serviam o pão da Presença" ( 10 : 3).

O livro chamado 2° Macabeus, ao falar de Hanuká, enfatiza que se tratava da purificação do santuário, acrescentando que as celebrações deveriam durar oito dias, assim como Sucot, que os Hashmonaim não puderam observar adequadamente, pois: “eles vagavam pelas montanhas e cavernas como animais selvagens” (10 : 6).

Além destes livros Josefo , no final do primeiro século da era comum, escreveu que os judeus explicavam Hanuká como: "o Festival das Luzes".

O problema é que ele não diz que este título, teria qualquer relação com a Menorá acesa durante a festa, e muito menos com um "milagre do óleo". Ele diz, que a festa era chamada assim, por ser uma comemoração de como: “Essa liberdade, algo além de nossas esperanças, "nos apareceu"; e disso deram o nome dessa festa.”

( Antiguidades dos Judeus 12 : 325)

MAS E AS FONTES RABÍNICAS CLÁSSICAS?

Compilações dos Taná'im, os textos dos Midrashim, da Mishná, da Tossefta e obras Haláhicas do período, não contam nenhuma história de Hanuká, e ainda por cima, nunca se referem à exigência de acender luzes de Hanuká.

Pois é. Nessas fontes, Hanuká, o início oficial da temporada de inverno [conforme vemos na Mishná em Bikurim 1 : 6] seria um festival no qual "o jejum e o luto são proibidos". [conforme lemos em Ta'anit 2 : 10]

Somos informados de que, durante o feriado, a porção da Torá sobre as Ofertas inaugurais dos chefes das tribos, no Mishkan (o texto de Bamidbar 7) era para ser, lida na sinagoga, [Mishná Meguilá 3 : 6] e, se sabia que nesta época, judeus acendiam velas do lado de fora da casa.

[Vamos na Mishná de Bava Kamma 6 : 6, que o rabino Iehudá isentava, o dono de uma loja, a pagar pelos danos causados ​​por um incêndio resultante desta prática, apesar de ter colocado velas de Hanuká do lado de fora. Esta mishná não diz que as pessoas deveriam acender as tais velas. Ela meramente assume que aquela era uma prática comum e, portanto, legalmente apropriada.]

Na Meguilat Ta'anit um pergaminho escrito em Aramaico, que listava as datas em que o jejum (e até consolo a enlutados) seriam proibidos. Uma obra de meados do primeiro século da era comum. Esta obra menciona a celebração de oito dias de Hanuká. Como a dra Vered Noam (Universidade de Tel Aviv) mostrou na sua versão crítica da obra, a versão mais antiga do comentário hebraico da era do período dos Amoraim, documento conhecido como Scholion. E este documento, não faz menção ao 'milagre do óleo'.

O Talmud Ierushalmi, ao contrário de outras fontes dos Taná'im, se referee a uma prática endossada pelos rabinos de 'acender luzes' para Hanuká, no entanto, é visivelmente desinteressado nos detalhes e motivos disso.

A obra oferece um pequeno diálogo, sobre o uso de óleo contaminado da Terumah (dízimo do produto que era dado ao Kohen - שמן שריפה) para se acender velas de Hanuká [Talmud Ierushalmi, Terumot 11; 10], e faz uma breve discussão, sobre a bênção que deve ser recitada [Talmud Ierushalmi, Suká 3 : 4], e conta de uma tradição que afirmava que seria proibido usar 'as luzes para verificar as moedas' [Talmud Ierushalmi, Shabat 2 : 1], e não diz muito mais que isso.

Textos litúrgicos da antiguidade tardia, incluindo piutim (poemas litúrgicos) e a reza 'al ha-nissim (por causa dos sinais...), que foram compostos na Terra de Israel, também não mencionam o tal "milagre".

ENTÃO QUAL A FONTE DA HISTÓRIA DO MILAGRE?

O relato da "queima milagrosa do óleo" aparece apenas no Talmud Bavli:

מַאי חֲנוּכָּה? דְּתָנוּ רַבָּנַן: בְּכ״ה בְּכִסְלֵיו יוֹמֵי דַחֲנוּכָּה תְּמָנְיָא אִינּוּן דְּלָא לְמִסְפַּד בְּהוֹן וּדְלָא לְהִתְעַנּוֹת בְּהוֹן. שֶׁכְּשֶׁנִּכְנְסוּ יְווֹנִים לַהֵיכָל טִמְּאוּ כׇּל הַשְּׁמָנִים שֶׁבַּהֵיכָל. וּכְשֶׁגָּבְרָה מַלְכוּת בֵּית חַשְׁמוֹנַאי וְנִצְּחוּם, בָּדְקוּ וְלֹא מָצְאוּ אֶלָּא פַּךְ אֶחָד שֶׁל שֶׁמֶן שֶׁהָיָה מוּנָּח בְּחוֹתָמוֹ שֶׁל כֹּהֵן גָּדוֹל, וְלֹא הָיָה בּוֹ אֶלָּא לְהַדְלִיק יוֹם אֶחָד. נַעֲשָׂה בּוֹ נֵס וְהִדְלִיקוּ מִמֶּנּוּ שְׁמוֹנָה יָמִים. לְשָׁנָה אַחֶרֶת קְבָעוּם וַעֲשָׂאוּם יָמִים טוֹבִים בְּהַלֵּל וְהוֹדָאָה.

A Guemará pergunta: O que é Hanukah, quer dizer, por que as luzes são acesas em Hanukah? A Guemará responde: Os Sábios ensinaram na Meguilat Ta'anit que: No dia 25 de Kislev ocorrem os oito dias de Hanukah. Nestes dias, não se pode lamentar por um falecido, e não se pode jejuar nem por isso. Qual é a razão? Quando os gregos entraram no Santuário, eles contaminaram todos os óleos que estavam no Santuário. E quando a monarquia dos Hashmonaim superou e saiu vitoriosa sobre eles, eles procuraram e encontraram apenas um frasco de azeite, que tinha ainda o selo do Kohen Gadol, indicando que não foi profanado pelos "gregos". E se estimava que havia óleo suficiente ali para acender o candelabro por apenas um dia. Mas, um sinal aconteceu e eles acenderam o candelabro, com o conteúdo daquele frasco, durante oito dias. No ano seguinte, os Sábios da época instituíram esses dias como festivos, e os tornaram feriados com recitação de Halel e agradecimentos especiais na reza e por meio das bênçãos.

Este relato, aparece perto do início de um "mini-tratado" de três fólios, preservado no segundo capítulo do tratado de Shabat (DAF 20b-23b), que detalha amplamente, as leis de acendimento das lâmpadas da Menorá de Hanuká.

[Caso não saiba o que é um "mini tratado", a sugestão é conhecer a obra de Abraham Weiss chamada, Studies in the Literature of the Amoraim (hebraico; Nova York: Horev and Yeshiva University, 1962).]

Esta passagem é única de vários modos: É a única que referência à "história do milagre do óleo", e isso por absolutamente "Toda a literatura rabínica clássica". E é um texto único, porque foi daqui que os rabinos dedicaram grande parte de sua atenção, para determinar o rito de acendimento das velas.

PORQUE O TALMUD TERIA MODIFICADO A ÊNFASE ORIGINAL DO FESTIVAL?

Os acadêmicos argumentaram que, o relato do Talmud Bavli sobre o milagre do óleo, e especialmente seu enfoque nas leis do novo ritual, de "acender as luzes de Hanuká", comunicam uma mudança realizada, no antigo feriado criado pelos Hashmonaim.

FAZENDO HANUKÁ DEIXAR DE SER SOBRE VITÓRIA MILITAR

Uma explicação dada é que, ao contar o "milagre do óleo", para justificar a celebração, o Talmud Bavli "efetivamente renomeia e remodela todo o feriado para que, em vez de glorificar "proezas militares" da parte dos Hashmonaims, o feriado agora, apenas glorificava "a luz divina", e a ideia de se ter "apoio incondicional" do divino. Esta seria uma inspiração de qualquer israelita poderia contar: De que, mesmo na escuridão mais sombria, haveria luz.”

[Ver nosso estudo: Hanuká, um olhar alternativo]

Se esta explicação estiver historicamente correta, continua estranho que "o milagre" não tenha sido mencionado, em absolutamente nenhum outro lugar em toda a literatura rabínica!

ENTENDENDO HANUKÁ NO CONTEXTO DO ZOROASTRISMO DA ÉPOCA DO TALMUD BAVLI

Um ponto de vista acadêmico mais atualizado, se relaciona especificamente ao contexto do Zoroastriano do Talmud Bavli.

[Para saber mais: Geoffrey Herman, “Religious transformation between East and West: Hanukkah in the Babylonian Talmud and Zoroastrianism,” in Religions and Trade: Religious Formation, Transformation and Cross-cultural Exchange between East and West (eds. in Peter Wick and Volker Rabens; Leiden: Brill, 2014), pp. 261–281]

Os israelitas da Babilônia viviam no centro administrativo do Império Persa Sassânida, e ao lado de falantes do idioma Persa, que eram da religião Zoroastra.

Uma das marcas do Zoroastrismo é a veneração do fogo, e a preocupação com este fenômeno, chamado por eles de "elemento sagrado". Para eles, tal elemento deve ser protegido das impurezas e tratado com respeito.

Isso poderia explicar várias passagens talmúdicas, que descrevem sacerdotes Zoroastrianos, tentando apreender candelabros dos rabinos - novamente, talvez porque estivessem preocupados, com os maus tratos "ao fogo".

Uma fonte, observa que esses candelabros de Hanuká poderiam, até mesmo, ser movidos no Shabat - veja a importância da questão - para: Protegê-los de sacerdotes fanáticos do Zoroastrismo:

וְרַב כְּרַבִּי יְהוּדָה סְבִירָא לֵיהּ? וְהָא בְּעוֹ מִינֵּיהּ דְּרַב מַהוּ לְטַלְטוֹלֵי שְׁרָגָא דַחֲנוּכְּתָא מִקַּמֵּי חַבָּרֵי בְּשַׁבְּתָא, וַאֲמַר לְהוּ: שַׁפִּיר דָּמֵי! — שְׁעַת הַדְּחָק שָׁאנֵי. דְּהָא אֲמַרוּ לְהוּ רַב כָּהֲנָא וְרַב אָשֵׁי לְרַב: הָכִי הִלְכְתָא? אֲמַר לְהוּ: כְּדַי הוּא רַבִּי שִׁמְעוֹן לִסְמוֹךְ עָלָיו בִּשְׁעַת הַדְּחָק.

A Guemará pergunta: E se o Rav realmente realizasse, de acordo com o parecer do rabino Iehudá de que seria proibido mover um objeto, que seria retirado de terras? Por acaso, eles não apresentaram um dilema para o Rav dizendo: Qual é a decisão a respeito de se mover um candelabro de Hanuká, de antes que venham os ḥabarei , sacerdotes Persas Zoroastrianos do fogo, no Shabat? Esses sacerdotes simplesmente proibiram acender fogueiras, em certos dias. Para evitar que descobrissem que a pessoa acendeu as velas de Hanuká, seria necessário movê-las rapidamente. E ele disse-lhes: Muito Bem pode fazer. Ou seja, pode carregar o candelabro de Hanuká no Shabat. Aparentemente então, o Rav não considerava que existe uma proibição de retirada. A Guemará responde: Isso não é uma comprovação, pois as circunstâncias exigentes são consideradas diferentes e o Rav permitiu aquilo, devido ao perigo envolvido. Como o rav Kahana e o Rav Ashi disseram ao Rav sobre este assunto: Essa é a halahá ? Ele disse: O rabino Shimon é digno de confiança em circunstâncias exigentes como esta.

Ao mesmo tempo, também seria possível dizer, que a veneração Zoroastriana do fogo, pudesse ter influenciado a criação da ideia em torno disso. A popularização de existir uma "santidade do fogo" em Hanuká.

É possível, que isso tenha encorajado algumas das restrições do Talmud Bavli, para popularizar ideias em torno de um status de consagração das velas de Hanuká, que beiram - sejamos francos - a veneração das velas acesas!

Ambos os fatores podem ter desempenhado um papel conjunto, na cultura do Talmud, contando a história do "milagre do óleo" (um sinal feito "no fogo"), que é claro, enfatizaria a ideia de que, aquele fogo - seria um "fogo milagroso" - e isso, faria com que os sacerdotes da religião Zoroastra deixassem os Judeus em paz! Afinal, ninguém desjaria ir parar num tribunal Persa (famoso pelo requinte de crueldade em punições), por causa da acusação de "profanação do fogo" por uma figura importante, naquela cultura.

Raciocine que, se acender a Menorá fosse de fato, um componente central da história de Hanuká, os judeus seriam capazes de explicar seu "costume de acender as luzes", mesmo em face de Zoroastras fanáticos. O problema deles não era com a luz, mas com o fogo mesmo.

[Talvez re-explicando as origens da prática, os judeus do império Sassânida, os Zoroastras pudessem tolerar o rito sem se ofender. Da mesma forma, se vê no Talmud, tratado de Sanhedrin 54b, uma descrição de rabinos tentando demonstrar ao rei Sassânida, Shapur, que o enterro era de fato exigido pela lei da Torá. Pois, tal qual no caso do fogo, o Zoroastrismo considera "a terra" sagrada, e também diz que por isso, ela "precisa de proteção" contra impurezas. Assim, a religião Zoroastra condena o sepultamento no solo, e às vezes os Zoroastristas até exumavam cadáveres enterrados por causa disso.]

Além de tudo isso, uma história "milagrosa" envolvendo "o fogo", no Templo, pode ter ressoado particularmente bem, entre os judeus babilônios, que viviam em um mundo de Templos de fogo e veneração pelo fogo. Era culturalmente familiar.

A HISTÓRIA DO MILAGRE DO ÓLEO DO TALMUD - A TRADIÇÃO DOS MACABEUS DE HANUKÁ EM NEHEMIAH

As abordagens anti-Hashmonaim e lidando com intolerância Zoroastra, não sugerem a origem ou o desenvolvimento da história do óleo, embora outros textos antigos possam oferecer algumas pistas.

[Na real, a história de "milagres" do Talmud Bavli pelo menos se apresenta, como não tendo sido 'criada' num período relativamente tardio na Babilônia talmúdica. Primeiro, a história é citada com o marcador - תנו רבנן Tanú Rabanán - indicando que, não foi "inventada" por Amoraim, mas sim, que era um "baraita" - uma tradição recebida e por isso, relativamente confiável. Quem inventou isso, não era daquela geração.

Além disso, a forma das fontes - com uma data aramaica e uma explicação hebraica dessa data - se alinha com a formatação da Meguilat Ta'anit, que da mesma forma, começa com uma lista aramaica de um feriado e é seguida por um comentário hebraico - o Scholion - sobre o significado daquele dia.]

Para começar, vamos resumir os principais elementos do relato do Talmud Bavli:

  1. Os judeus finalmente retornam ao Templo após o exílio, mas não conseguem realizar um ritual importante - o acendimento da Menorá do Templo - devido à falta de material inflamável apropriado.
  2. Eles procuram e conseguem encontrar apenas uma pequena quantidade de óleo.
  3. Sempre esperançosos, eles acendem o óleo e acabam por vê-lo queimar "milagrosamente", por muito mais tempo do que o esperado.
  4. Posteriormente, eles recitam elogios e agradecimentos nas gerações subsequentes. Cria-se uma festa.

NEHEMIAH FAZ A REDEDICAÇÃO DO ALTAR DO SEGUNDO TEMPLO EM 25 DE KISLEV

O segundo capítulo de 2° Macabeus, narra uma história que compreende esses mesmos elementos básicos, embora descreva a rededicação "do altar" e não "da Menorá".

Essa história aparece numa carta que, supostamente, foi enviada aos judeus de Alexandria, pedindo a eles que participassem da celebração anual de Hanuká.

Um dos principais objetivos da carta era se referir às celebrações anteriores de “Hanuká”, de modo que a Hanuká dos Macabeus, não fosse vista como uma inovação sem precedentes, mas sim como uma observância com raízes mais profundas na história judaica.

Ao recontar essa dedicação pré-Hashmonaim, o texto descreve os esforços de Nehemiah para restaurar as Oferftas nos primeiros anos do Segundo Templo, após o Exílio Babilônico. Tal qual a Menorá, o fogo seria fundamental para o uso do altar; e como com a Menorá - que na narrativa do Talmud Bavli requer óleo carimbado com o selo do Sumo Sacerdote - não se poderia usar nenhum graveto para o ritual, apenas material que pudesse ser rastreado até o altar original.

[E temos na Torá, o conceito de se trazer um "fogo estranho" por isso mesmo, na primeira dedicação do altar do Mishkan, no caso dos filhos de Aharon, Nadav e Avihu, que foram mortos (Vaicrá 10 : 1, 2).]

Assim, quando Nehemiah estava pronto para restaurar as Ofertas no altar, ele precisava de alguma forma “recuperar” o fogo original, que ardia no Primeiro Templo. Claro, o fogo original não continuou a queimar, no entanto, seu resíduo havia sido escondido pelos sacerdotes e então, poderia ser recuperado.

Deste modo, vemos o surgimento do argumento "milagroso" nessa “nafta”, pegou fogo e consumiu a Oferta, re-inaugurando o altar, inspirando rezas de louvor e agradecimento.

Aqui está a história com os quatro elementos paralelos numerados e explicados:

(1) Os judeus retornam ao Templo depois de serem exilados dele, mas são incapazes de realizar um ritual chave - os Ofertas no altar - devido à falta de material de gravetos apropriado. No texto de 2° Macabeus 18 se lê:

Visto que no vigésimo quinto dia de Kislev celebraremos a purificação do templo, pensamos ser necessário notificá-lo, a fim de que vocês também possam celebrar a festa das cabanas e a festa do fogo, dada quando Nehemiah, que construiu o templo e o altar e trouxe Ofertas. 19 Pois quando nossos ancestrais estavam sendo levados cativos para a Pérsia, os piedosos sacerdotes daquela época, pegaram um pouco do fogo do altar e o esconderam secretamente, na cavidade de uma cisterna seca, onde tomavam tais precauções que o lugar era desconhecido por ninguém.

(2) Eles procuram e conseguiram encontrar apenas uma pequena quantidade de resíduos de gravetos.

E em 2° Macabeus 20 lemos:

Mas depois de muitos anos, quando Deus quis, Nehemiah, tendo sido comissionado pelo rei da Pérsia, enviou os descendentes dos sacerdotes que tinham escondido o fogo para pegá-lo.

(3) Sempre esperançosos, eles acenderam este material e tiveram o mérito de vê-lo milagrosamente queimar e consumir a Oferta. E quando nos relataram que não haviam encontrado fogo, mas apenas um líquido espesso, ele ordenou que mergulhassem e trouxessem. 21 Quando os materiais para as ofertas, foram apresentados, Nehemiah ordenou aos sacerdotes que aspergissem o líquido sobre a lenha e sobre as coisas colocadas sobre ela. 22 Quando isto acontecia e algum tempo se passou, e quando o sol, que havia sido encoberto, brilhou, um grande fogo acendeu, de modo que todos se maravilharam.

(4) Posteriormente, eles recitam elogios e agradecimentos por gerações.... (23) Enquanto a oferta era consumida, os sacerdotes rezavam - os sacerdotes e todos. Ionatan liderava e os demais respondiam, assim como Nehemiah.

O paralelo estrutural da dedicação do altar de Neemias e a história de Bavli é claro. Mas como essas histórias podem ser conectadas?

EXPLICANDO O PARALELO

O livro de 2° Macabeus foi escrito em grego e não faz parte do conjunto de textos considerados sagrados pelos rabinos, e nenhuma evidência sugere, que os rabinos tivessem acesso a este texto.

O relato grego escrito do "milagre do altar de fogo" de Nehemiah, entretanto, é o tipo de tradição que pode ter circulado oralmente na antiguidade. O aparecimento da história do milagre da iluminação da Menorá no Talmud Bavli, com sua ênfase semelhante no "retorno de um exílio", em "busca de material de acendimento" com uma "iluminação milagrosa" resultante, provavelmente deriva dessa narrativa.

Ou os rabinos tinham uma tradição sobre a rededicação do altar, e transformaram essa tradição numa história sobre a Menorá, ou um "conto milagroso da menorá" que seria, pré-rabínico, circulou oralmente ao lado das histórias sobre Nehemiah, nunca tendo sido escrito.

CONEXÃO ZOROASTRA DAS DUAS NARRATIVAS

O restante da história em 2° Macabeus, descreve uma conexão Zoroastra com a tradição de Nehemiah, que poderia ainda ligar à discussão do Talmud Bavli sobre Hanuká:

… 31 Depois que o material da oferta foi consumido, Nehemiah ordenou que o líquido restante fosse derramado sobre grandes pedras. 32 Feito isso, acendeu-se uma chama; mas quando a luz do altar voltou a brilhar, apagou-se. 33 Quando este assunto se tornou conhecido, e foi relatado ao rei dos Persas que, no lugar onde os sacerdotes exilados haviam escondido o fogo, apareceu o líquido com o qual Nehemiah e seus associados, haviam queimado os materiais da oferta, 34 o rei investigou o assunto, fechou o local e o tornou sagrado. 35 E com aquelas pessoas a quem o rei favoreceu, ele trocou muitos presentes excelentes. 36 Nehemiah e seus associados chamaram isso de “nefthar”, que significa "purificação", mas para a maioria das pessoas é chamado de "nafta".

Embora o Talmud Bavli não mencione nenhuma resposta Zoroastra ao milagre, como vimos, sua narração da história num contexto Zoroastra, ao detalhar o ritual de acender as velas de Hanuká e relatar uma história sobre a "queima milagrosa" do óleo, a discussão do Talmud Bavli sobre Hanuká também reflete um mundo em que judeus do império Sassânida e Zoroastros poderiam juntos, dizer: “essas velas são sagradas” = הנרות הללו קודש הם.

RESPOSTA ZOROASTRA AO MILAGRE DO FOGO

Conforme o texto descreve, após o reacendimento do altar por Nehemiah, um rei Aquemênida - não identificado - reage positivamente ao que ele entendeu ser "um milagre do fogo", chegando até mesmo "a fechar o lugar" e "tornando-o sagrado".

Isso é curioso, pois para os judeus, o local já era considerado sagrado, pois fazia parte do Templo restaurado. Então, o local foi tornado sagrado para os Zoroastras.

Parece que o redator de 2° Macabeus sabia que os Aquemênidas eram Zoroastras e imaginaram o rei fazendo algo que "faria sentido", no contexto da religião de Zoroastro - fechar formalmente uma área de fogo, para consagrá-la.

Desta forma, tanto o devoto a Zoroastro quanto o judeu apreciariam "o fogo" restaurado no altar.

QUAL SERIA A VERSÃO ORIGINAL DE HANUKÁ DE SCHOLION?

A versão impressa e alguns manuscritos do Scholion - o comentário da era dos Amoraim sobre a Meguilat Ta'anit - preservam uma versão, quase idêntica do "milagre" do Talmud Bavli:

מגילת תענית (דפוס וילנא) שכשנכסנו יונים להיכל טמאו כל השמנים שבהיכל וכשגברה יד בית חשמונאי ונצחום בדקו ולא מצאו אלא פך אחד שהיה מונח בחותמו של כהן הגדול שלא נטמא ולא היה בו להדליק אלא יום אחד נעשה בו נס והדליקו שמונה ימים…

Megillat Ta'anit (ed. Vilna)

...Pois quando os gregos entraram no Santuário, eles contaminaram todos os óleos do Santuário, e quando a dinastia Hashmonaí prevaleceu e os derrotou, eles fizeram uma busca e encontraram apenas um recipiente de óleo que estava com o selo do Sumo Sacerdote, mas que continha o suficiente apenas para a iluminação de um dia; mesmo assim, um sinal ocorreu e eles acenderam [a lâmpada] com ele, por oito dias ...

Na obra [Vered Noam, Megillat Ta‘anit: Versions, Interpretation, History - Jerusalem: Yad Ben Zvi, 2003] da Meguilat Ta'anit e seu Scholion, A dra Vered Noam demonstra que a versão original do Scholion não se refere à história.

Esta é a reconstrução dela, com base no manuscrito de Oxford:

בימים ראשונים חנוכת משה זאת חנוכת מזבח. משלמה ואילך חנוכת משה וחנוכתו, שנ’ כי חנוכת המזבח שבעת ימים ושמונה משנטל בית הלבנון. חנוכת בית חשמונאי לדורות. ולמה נוהגת לדורות? שעשאום בצאתם מצרה לרוחה ואמרו הלל והדליקו בה נרות בטהרה…

Antigamente, a dedicação (Hanuká) de Moshe - “Esta foi a dedicação do altar” (Bamidbar 7 : 84); De Shlomo em diante, a dedicação de Moshe (foi celebrada) e também a sua (isto é, a dedicação de Shlomo), como está declarado: "para (aquele que observaram) a dedicação do altar, sete dias," E, oito (dias) quando a Casa do Líbano tinha sido pego (?) A dedicação dos Hashmonaim (para ser celebrada) por (todas) as gerações. E por que é comemorado por gerações? Pois eles os observaram quando emergiram da angústia ao alívio, e recitaram nele o Halel e acenderam luzes na pureza ...

Embora o texto se refira às luzes sendo acendidas pelos hashmonaims, o material enfatiza a recuperação e rededicação do santuário, que então permitia tal acendimento “puro”, sendo esta a motivação original de Hanuká.

Ao contrário dos relatos mais antigos, de Primeiro e Segundo Macabeus e também Josefo, que enfatizam a rededicação do altar, esta versão do texto enfatiza o acendimento das luzes, desde o início de seu relato. Isso comprova que havia mesmo uma tradição sobre isso.

E talvez, isso até reflita a aceitação generalizada do costume, de se acender velas em Hanuká.

Dito isso, vale ressaltar que o texto Scholion também não menciona o óleo queimando milagrosamente por oito dias...

DE QUALQUER MODO - FELIZ HANUKÁ

...a realidade é o barômetro da verdade...